sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dá-me uma palavra Senhor.


Dá-me uma palavra Senhor.

Uma palavra semelhante, «palavra abreviada», pronunciada por Vós, uma palavra que não diga tudo ao mesmo tempo, mas uma coisa só que eu fosse capaz de compreender, restituir-me-ia a confiança. Sim, a Vossa palavra só me atingirá com a condição de ser uma palavra humana. Senhor, não me digais tudo o que sois na Vossa imensidade; dizei-me somente que me amais e que sois bom para mim. Mas não o digais na Vossa linguagem divina, com palavras que signifiquem tanto o Vosso amor como a Vossa justiça inexorável e o Vosso poder de destruição. Dizei-o antes na minha linguagem, para evitar o meu medo de que a palavra amor possa conter outra coisa além da Vossa bondade e misericórdia acolhedora.

Ó Deus infinito, Vós dignastes-Vos dirigir-me esta palavra! Ordenastes ao oceano da vossa imensidade que não fizesse irrupção no miserável muro que envolve o campo da minha vida, bem ao abrigo da Vossa grandeza infinita. Quisestes que só o orvalho da Vossa clemência descesse sobre esta pequenina terra que é a minha. Viestes até junto de mim numa palavra humana, pois Vós, o Deus infinito, Vós sois o Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele falou-nos uma linguagem humana, e não mais pode a palavra humana significar qualquer outra coisa que possa ser terrível para mim. Pois quando Jesus afirma que nos ama e que Vós amais através d’Ele, esta palavra sai de um coração humano. E num coração humano esta palavra só tem um sentido, um sentido cheio de felicidade. Quando este coração humano nos ama, o Coração do Vosso Filho, um coração limitado como o meu pobre coração – que seja bendito por isto! – então o meu coração fica tranquilo. Quando este coração me ama, sei que o seu amor é só amor. Ora, Jesus disse efectivamente que me ama, e a sua palavra saiu de um coração humano. Este coração é Vosso, ó Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se este coração humano do Vosso Filho é infinitamente maior do que o meu, infinitamente mais rico e mais amplo do que o meu pobre coração, então é somente inexplicavelmente mais rico no amor e inefavelmente mais rico para a bondade, a qual só pode ser bondade e amor, e por isso não encobre em si o terror da vossa própria infinitude, a qual é tudo ao mesmo tempo.

Concedei-me, Deus infinito, que me agarre sempre a Jesus Cristo, meu Senhor. Que o seu Coração me manifeste como Vós sois para mim! Desejoso de saber quem sois, eu contemplarei o seu Coração. Quando me contento com fixar o olhar do meu espírito na Vossa imensidade, na qual Vós sois tudo em cada coisa, deixo de ver e as trevas que me rodeiam são mais insuportáveis do que todas as minhas noites humanas. Eis por que, ó Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, eu levantarei os olhos para o coração humano do Vosso Filho, e fico com a certeza de que me amais.

Mas eis, Senhor, um último pedido: tornai o meu coração semelhante ao Coração do Vosso Filho, e tão amplo e tão rico em mim, para que nele meus irmãos encontrem o caminho para Vós, para que durante a minha curta vida, um deles, ao menos, entre por esta porta para ficar a saber que Vós o amais. Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, concedei-me que Vos encontre no seu Coração.

Karl Rahner, In Apelos ao Deus do silêncio.

sábado, 26 de novembro de 2011

Vigiai!


PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (ANO B)

Senhor, nosso Deus, fazei-nos voltar para Vós.
O Senhor rasga os céus e desce até à nossa vida
Para nos arrancar da sonolência e da apatia.
Distribui por nós, os seus servos, as tarefas do Seu Reino.
Torna-nos firmes até ao fim.
N’Ele esperamos, n’Ele confiamos.
Não esperamos em vão.
O Senhor prepara algo novo
Para aqueles que não perdem a esperança
E sabem olhar na Sua direcção.
Vigiai!

Dai-nos, Senhor, o ânimo para criarmos vida,
Para a inventarmos constantemente,
Sem nos deixar arrastar na vã corrente do desalento.
Vigiamos com o teu olhar de esperança sobre a humanidade.
Caminhamos em comunidade para o vosso Reino,
Seguros da Vossa vinda em cada dia.

Meu Deus, eu não Vos amo

Meu Deus, eu não Vos amo.
Não o desejo.
Aborreço-me convosco.
(É preciso ser franco com Deus. Se soubésseis como me aborreço, eu.)
Talvez mesmo nem acredite em Vós.
Mas olhai-me cara a cara.
Abrigai-Vos um momento na minha alma.
Ordenai-a com um sopro,
Sem parecer, sem nada me dizer.
Se tendes desejo de que creia em Vós,
Dai-me a fé.
Se tendes desejo de que Vos ame,
Dai-me o amor.
Eu não o tenho e não posso fazer nada.
(É bem verdade, não posso fazer nada.)
Dou-Vos o que tenho, a minha fraqueza, a minha dor,
E esta ternura que me atormenta
E que vedes bem.
E este desespero.
E esta vergonha louca.
O meu mal, nada senão o meu mal, é tudo.
E a minha esperança.
Algumas vezes também apresento-me a Deus
Como uma carregadora de sofrimentos,
Carregada com todos os fardos da vizinhança.
E digo-lhe: Senhor, não me dês atenção a mim.
Não posso agradar-Te.
Olha somente para os sofrimentos que Te trago
Como uma pobre comissária que vem da parte dos outros.
Eis o mal do meu pai, eis o mal do meu amigo,
O mal deste ou daquele outro.
Ei-lo, meu Deus!
Procuráveis-me? Mas que quereis de mim?
Não tenho nada para Vos dar.
Desde o nosso último encontro,
Não pus nada de lado para Vós. Nada.
Nem uma boa acção. Estava muito cansada.
Nem uma boa palavra. Estava demasiado triste.
Nada senão a aversão de viver, o aborrecimento, a esterilidade.
E Deus diz: Dá!
A pressa de ver todos os dias o dia acabado sem servir para nada.
O desejo de repouso longe do dever e dos seres.
O desapego do bem a fazer.
A aversão a Vós, oh, meu Deus!
- Dá!
O torpor da alma com o remorso da minha moleza,
A moleza mais forte que o remorso.
- Dá!
A necessidade de ser feliz, a ternura que quebra,
A dor de ser eu, sem retorno.
- Dá!
Perturbações, medos, dúvidas.
- Dá!
Senhor, como um trapeiro, ides recolhendo resíduos, imundices?
Que quereis fazer disto, Senhor?
- O Reino dos Céus.


De Marie Noël
In A Mensagem de Jesus, de François Varillon, SJ, AO, Braga 2007, págs. 192-194.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

JEANNE BARBEY, a doença como fonte criadora




Com 33 anos de idade, Jeanne Barbey é uma jovem e talentosa compositora francesa de música sacra.

Desde a mais tenra idade, Jeanne apaixonou-se pela música, mais particularmente pela música sacra, praticando e dirigindo coros de canto religioso.

Os estudos em história, iniciados na prestigiada universidade de Sorbonne, em Paris, são interrompidos em razão da mucoviscidose, uma doença genética grave que foi condicionando cada vez mais a sua vida.

Jeanne refugia-se na música, nomeadamente na composição. Em 2004, sabendo que uma jovem comunidade monástica se instalou na Abadia de Sainte-Marie de Lagrasse que procuram restaurar, ela decide ajudá-los. Compõe um “Te Deum” que será interpretado perante 1500 pessoas em Janeiro de 2006. Tal foi o sucesso da venda da gravação do espectáculo que Jeanne percebeu que a música passaria a ser o seu contributo para o mundo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A doença como dom
 
Na verdade, a doença hereditária que lhe afecta o sistema respiratório começou a condicionar de tal maneira a sua vida que se questionou sobre o sentido da sua existência. Que fazer do tempo quando não se pode fazer nada? Depois da depressão inicial, Jeanne encara a sua enfermidade não como um impedimento à sua felicidade mas como uma oportunidade.
Cada manhã tem de fazer 3 horas de exercícios para poder respirar, permitindo-lhe alguma energia que dedica quase exclusivamente à criação musical. Por vezes, quando o esforço é demasiado intenso, necessita recuperar durante vários dias. Limitada a apenas 35% da sua capacidade respiratória, Jeanne, no entanto, optimiza a sua existência: “Se não houvesse doença não haveria música nem composição”. Se poder compor é um dom, então a enfermidade não pode ser tomada como um castigo mas como um presente, explica Jeanne. Nos momentos mais dolorosos ela descobre-se “mimada por Deus” porque sente esses instantes como um apelo ao essencial.
Consciente que a dor não é propriamente uma "amiga", parte do princípio que o sofrimento vão é inútil e absurdo. Assim, Jeanne afirma convictamente que “a melhor forma de sofrer é oferecer a dor”. “Tenho perfeitamente a sensação de estar na via que é a minha, e isso é a felicidade… é a confiança total daquilo que Deus quer para nós, é a esperança, aconteça o que acontecer… A partir do momento que aceitamos tudo, tornamo-nos felizes”.
Mas para Jeanne, aceitar não é passividade mas sim confiança.
 
 
A fé como força
 
Sabendo que vive na iminência da morte, Jeanne vive serena e intensamente cada dia. “Nunca digo que não tenho sorte… nunca vivi desesperada… a vida nunca é inútil”.
Onde encontra ela tal força e alegria?
Jeanne confessa que compreende mal a confusão entre felicidade e a ilusão actual da perfeição e bem-estar físicos como garantia de realização humana. “Sou doente mas não sou infeliz”, defende.
A sua relação com Deus ilumina a sua vida e encontra na oração a força necessária para enfrentar a evolução degenerativa da doença. A intimidade com Deus permite “momentos em que nos sentimos amados”. “O amor da vida e a esperança do céu vão juntas porque é Deus que nos dá a vida.” Frequentemente, esclarece ela, nas horas de maior sofrimento, a oração proporciona-lhe alívio e inspiração para criar.
Jamais duvidou da sua fé e esta permite-lhe perceber a lógica da vida, discernindo sempre o sentido da existência e a vivência de todos os acontecimentos.
Apesar das graves limitações de saúde, a sua alegria e entusiasmo são uma sinfonia a/de Deus.
Aqui fica um exemplo do seu dom musical, fecundado pela sua doença:


http://www.dailymotion.com/video/xdqw1w_te-deum-barbey_music#from=embediframe


In http://sdpv.blogspot.com/

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Reescrever Emaús...


Depois de muitas expectativas alimentadas na grande cidade, lá voltamos nós à nossa pequena aldeia da vida comum, com desalento e tristes.
“Ainda não foi desta vez, nem com este homem, que as coisas mudaram” – repetimos um ao outro.
“Colocámos n’Ele tanta esperança, confiámos tanto nas suas palavras, vimos tantas coisas maravilhosas. Mas tudo acabou no fracasso. Ele não nos mudou a vida.”
Aproximou-se então um Desconhecido, vindo não sei de onde, e começou a caminhar connosco sem qualquer convite da nossa parte.
“Do que falam vocês no caminho da vida? O que vos preocupa, entristece e carrega o vosso andar pelas curvas da história?”
“Sabes lá o que é tristeza, preocupações ou sofrimento?” – rematamos nós. “Com essa pergunta deves ser o único que pensa que a vida é bela e amarela.”
“Contem lá o que vos incomoda” – insistiu o Estranho.
“Na desorientação da nossa vida, e porque dificilmente conseguimos orientarmo-nos a nós próprios, colocámos as nossas esperanças em Jesus de Nazaré. Ele dizia coisas maravilhosas, que eram acompanhadas de acções que as comprovavam. Nós esperávamos que fosse Ele a dar novo sentido ao nosso viver. Mas as autoridades da nossa instalação; os sumos-sacerdotes do nosso egoísmo, pecado e horizontes curtos; os fariseus da nossa hipocrisia e falta de coerência; e os escribas da falta de coragem e decisão crucificaram-no e mataram-no.
Nós esperávamos que fosse Ele a fazer as coisas por nós. Mas já lá vai o terceiro dia e nada mudou. Algumas mulheres do nosso grupo – a Esperança, a Fé e a Caridade – assustaram-nos por fazerem, realmente, muito sentido nas nossas vidas e diziam que Jesus não tinha morrido. A razão e o sentimento foram ao túmulo e não encontraram lá a nossa vida. Mas a Jesus ninguém O viu.”
E o Desconhecido aponta-nos esta lança: “Homens sem entendimento, sem horizontes de vida, sem esperança nem fé nem confiança para perceber a vossa própria história. Então o Messias não tinha de sofrer tudo isso para vos mostrar e levar para Deus?”
E, desde Moisés e passando pelos profetas, explicou-nos o sentido das Escrituras e como elas iluminavam a nossa vida com a luz de Deus que é o próprio Cristo.
Quando chegámos à nossa aldeia da vida quotidiana, o Desconhecido fez questão de continuar o caminho para diante. Nós insistimos com Ele: “Fica connosco. A nossa vida já vai adiantada e a noite do sem sentido de viver aproxima-se”.
O Desconhecido entrou, então, na casa da nossa vida pessoal, sentou-se à mesa das nossas decisões, tomou o alimento do amor, partiu-o e entregou-nos.
Nisto os nossos olhos abriram-se e nós reconhecemos Jesus. Aquele que por nós se entregou por amor. Mas o amor tinha desaparecido da nossa vista.
Confessámos um ao outro: “Não nos ardia o coração quando Ele nos explicava as Escrituras como uma história de amor entre Deus e a humanidade?”
No mesmo instante levantámos a nossa vontade e voltámos para a cidade dos grandes objectivos. Lá estavam os outros Onze, reunidos no amor, que nos confirmaram: “Realmente Jesus ressuscitou! Iluminou com a Sua vida nova a nossa razão de viver.”
E nós contámos o que nos tinha acontecido no caminho da vida e como recebemos e reconhecemos Jesus ao repartir o alimento do Seu amor.


(É uma visão pessoal do texto)

A minha fé na Ressurreição


Depois do sofrimento e da confusão causada pelo pecado, sinto no meu coração a antecipação de algo novo, aquela dor na barriga de que algo está para acontecer.
Senti-me perdoado porque Cristo está vivo. Ele não morreu nem me deixou morrer. É assim, de facto.
O pecado que me feria não me matou porque Cristo morreu por mim. O estado de morte – ou de recusa da vida – não foi total porque a morte foi vencida.
Há qualquer coisa dentro do peito que quer rebentar para fora. Corre!
Vê o lugar onde jazias. Tu não estás lá porque alguém assumiu esse lugar. E esse Alguém também não está morto.
Corre a minha razão e o meu sentimento (Jo 20, 1-10). Chega primeiro o sentimento, que é sempre mais apressado e precipitado. Chega mas não tem coragem para entrar.
Chega depois a razão, mais cautelosa, e por isso vai mais devagar. A razão entra e vê, mas não entende. Como pode ser?
Entra, então, o sentimento. Aquilo que não vê e o pouco que vê bastam. Viu e acreditou!
Ainda não tinham entendido porque esse entendimento vem pela Palavra reveladora: era assim que tinha de ser!
Contra toda a lógica, e no meio da confusão dos sentimentos. Mas aconteceu!
Fui devolvido à vida! A uma vida nova, transformada pelo amor que experimentei no meio do desespero do pecado.
A fé voltou. Compreendeu pelas Escrituras, sentiu no coração e experimenta na vida.
Ainda não vejo essa vida renovada, mas já não vivo na velha condição do pecado.
Sinto-me livre e recuperado da luta que Alguém travou por mim e comigo.
Mas não está tudo feito… Choro.
Queria tocar, ver e ouvir Aquele que me acompanhou.
Mas, afinal, quem procuro (Jo 20, 11-18)? Aquele que me libertou ou os restos daquele que foi libertado? Se a vida é nova como a conheço?

Ouço o meu nome. Reconheço-me.
“O essencial está feito. Agora és tu que tens de caminhar. Não me detenhas, esperando que Eu faça o caminho por ti. Eu libertei-te e dei-te uma vida nova. Merece-a! Vive-a! Eu sou essa vida nova. Vive em Mim!
Já não sou apenas o companheiro; mas sou o caminho e a meta. Já não sou apenas o dedo que aponta o mal; sou o critério para o perceber.
Eu vou para o Pai para levar comigo a tua vida e a da humanidade inteira. O caminho ainda não terminou. Apenas venceste uma batalha na luta da vida.”
E eu vi o Senhor!
Na minha vida perdoada, no alento renovado para fazer caminho.
E na conversa ao telefone com aquela pessoa que, das profundezas do sofrimento que esmaga, se ergueu mais forte e renovada.
Encontrei-me porque O encontrei. E encontrei-O em ti que comigo caminhas e me ajudas a caminhar com o teu testemunho sofrido.
Senhor, não quero voltar a trair-Te.
É nestas minhas chagas abertas que vejo os sinais da ressurreição. É nessas feridas que não desaparecem, mas que já não doem, que percebo as minhas limitações e enganos e o quanto isso me escraviza.
É nessas feridas que sinto a dor de ser perdoado e re-ligado.
Dizia Newman que o padre é o “curador ferido”. Pois são essas chagas o meu púlpito!

Meu Senhor e meu Deus (Jo 20, 19-31), que o medo de voltar a falhar e a trair-Te não me paralise. Que a paz alcançada pela grande luta me afaste do pecado e seja vivida com e para os outros. Só a Ti sirvo (Senhor) e só a Ti adoro (Deus)!

Via-sacra

Os relatos da paixão de Jesus são, como disse alguém, muito “cinematográficos”.
Isso dá-nos uma grande possibilidade: imaginem-se como uma das personagens que acompanha Jesus desde a Última ceia até à Cruz.
Procurem, como diz S. Inácio, o conhecimento interior de Cristo, os seus sentimentos; os sentimentos de cada um dos actores. Procuremos perceber quais são os nossos sentimentos a cada momento desse caminho.

Preparem-se… Acreditem que não vai ser fácil.

E mais não digo…


P.S: Certamente vão passar os olhos por este “post” e seguem para o seguinte.
Mas experimentem mesmo fazer este exercício na vossa oração.

As duas bandeiras (EE 136)

Acolhe-me, Senhor, debaixo da Tua bandeira da Cruz para combater o exército dos meus pecados.
Sou fraco guerreiro; fraco mas livre eu quero ser.
Estendo para Ti a minha mão atrofiada (Lc 6, 6-11) pelos olhares e critérios daqueles que se acham donos do mundo e dos outros.
Humilho-me diante deles para receber como única glória o Teu amor que perdoa e liberta.
Mas porque Te chamo “Senhor”, se não faço aquilo que me dizes (Lc 6, 46-49)?
Tantas vezes que a casa da minha vida já foi varrida pelas tempestades da vida.
Tudo o que não está em Ti é pó e areia.
E lá continuam os meus cálculos sobre mim mesmo e sobre o que os outros pensam de mim.
E se fizesse contas ao peso da Cruz do Senhor na minha vida (Lc 14, 27-35)?
Ou será que ela não pesa nada comparando com as honras do mundo e dos homens?
O que pesa mais, afinal, na minha vida? O que lhe dá sentido?
Seguir a bandeira de Cristo que dá sabor e força à vida, ou a bandeira das honras que hoje vêm e amanhã desaparecem, nunca sem antes nos aprisionar?
Visto o uniforme da fé, mas sou um espião do exército inimigo, ou um mercenário que só quer o melhor dos dois lados.
Servo hipócrita, que gastas os bens do Teu Senhor e não esperas a Sua chegada (Mt 24, 45-51).
Se eu soubesse que o Senhor viria amanhã, como viveria o dia de hoje?

Meu Deus, tende piedade de mim, que sou pecador (Lc 18, 9-14).


Quero ostentar bem no alto da minha vida a bandeira de Cristo.
Quero ouvir o Seu chamamento na Sua Palavra;
Lutar fielmente com as armas da verdade, da humildade,
da oração e do serviço desprendido.
Quero integrar as fileiras dos homens livres porque filhos de Deus,
Resgatados pela paixão do Senhor Jesus.

Desabafos

Renuncio a uma vida a “meio-gás” para ter uma vida inteira; para me entregar inteiramente ao Senhor Jesus, pois Ele também se entregou totalmente a mim.
Desprendo-me de tudo para me prender ao amor de Deus.
Mas serei capaz de me desprender de mim mesmo?
O Senhor o pede e o Senhor há-de indicar o caminho.
E também me há-de amparar e corrigir quando for necessário.

Vieram-me ao coração e à mente alguns fantasmas, conflitos mal resolvidos e atitudes menos próprias.
São humilhações que o Senhor me oferece e que eu aceito com humildade.
São provas do meu mau seguimento e da fraqueza do meu sal.
Tudo isto Te ofereço, Senhor, para que o transformes com o Teu amor e me faças seguir-Te mais fiel e humildemente.

«O vosso espírito de bondade me conduza por caminho recto.
Por vosso nome, Senhor, conservai-me a vida, por vossa clemência tirai da angústia a minha alma.»
Sl 142 (143)

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Uma alma ferida de amor

Uma das grandes lutas na oração é a experiência da ausência de Deus.
Parece que Deus não se interessa por nós, não comparece na oração, não se faz ouvir na Palavra, não se manifesta na caridade, etc... Parece que Deus nos abandona nos nossos defeitos, na nossa aridez.
Sabem o que é a saudade? Aquele sentimento que, de vez em quando, precisamos de sofrer para percebermos o quanto amamos alguém?
Perceber que Deus já nos salvou, já entregou o Seu Filho por nós, já nos libertou...
A humilhação de ser perdoado... De mendigar amor com a certeza de que ele é dado.
A consciência do meu afastamento e não de Deus.
Esse sentimento de ausência não acontece quando menos confiamos?
Queremos fazer tudo bem e esquecemos de nos abandonar em Deus.
Aceito esta humilhação para minha santificação.
Como S. Francisco Xavier digo: Mais, mais, mais...

Deixo-vos com outro Francisco...

Uma alma ferida de amor pela ausência de Deus

«Esta pobre alma, que sente bem que está resolvida a morrer para não ofender o seu Deus, mas que, entretanto, não sente um pouco que seja de fervor, antes pelo contrário, uma frieza extrema que a mantém toda entorpecida e tão fraca que cai incessantemente em imperfeições muito sensíveis, está toda ferida porque o seu amor está muitíssimo dorido por ver que Deus parece não querer ver como ela o ama, deixando-a como uma criatura que não lhe pertence; e parece-lhe que, entre os seus defeitos, as suas distracções e friezas, nosso Senhor lança contra ela esta censura: Como podes dizer que me amas, se a tua alma não está comigo? Para ela, isto é um dardo de dor que atravessa o seu coração, mas um dardo de dor que procede do amor, porque, se ela não amasse, não se afligiria com a percepção de que nada mais tem senão amar.»

(S. Francisco de Sales, Tratado do Amor de Deus, Livro 6, cap. 15)

Árvore

Eu sou uma árvore plantada por Deus.
A semente da Palavra caiu num terreno difícil, árido, lavrado pelo pecado.
Sem saber como, a semente foi crescendo (Mc 4, 26-32) e deu uma árvore.
A árvore voltou a ser cortada pelo tronco, por causa do pecado.
Do tronco brotou um rebento, que voltou a crescer e tornou-se novamente árvore.
Esta árvore já tem uma certa altura e faz parte de uma floresta.
Muitas aves do céu contam com esta árvore e procuram nela abrigo, remédio e alimento.
A árvore gostaria de ter sempre tudo isso, mas tem de obedecer ao tempo, e dar abrigo, semente, folhas e fruto na sua devida altura.
Esta árvore é agitada pelo vento que espalha a sua semente e renova as suas folhas.
A árvore é aquecida pelo sol e sofre com a geada e o frio.
Esta árvore tem alguns ramos secos, onde não há folhas nem fruto.
A árvore não consegue partir os ramos secos. Precisa do vento forte ou que alguém venha cortá-los.
Esta árvore tem vergonha dos seus ramos secos, mas tem confiança que eles hão-de ser cortados na devida altura.
A árvore não cresce como quer mas depende do sol.
E precisa de água e alimento para continuar a crescer e a dar fruto.
Esta árvore precisa de ter raízes fortes para suportar as tempestades da vida, senão é arrancada pela raiz.

«Só em Deus descansa a minha alma, d’Ele vem a minha esperança.
Ele é o meu refúgio e salvação, minha fortaleza, jamais serei abalado.» Sl 61(62)

Um "P.S" para vocês


Às vezes não se devia colocar aqui estes textos sobre a oração.
São muito pessoais e a minha experiência será certamente diferente da vossa.

Para aqueles que não percebem isto da oração e acham que a oração é falar ou pensar muito ou fazer muita coisa.
Para aqueles que gostam de mandar os seus “bitaites” porque já sabem sempre tudo e mais alguma coisa, ou porque nunca sabem nada e passam a vida a perguntar aos outros sem ir à descoberta, olhem… Calem-se…

Passem, pelo menos, meia hora em silêncio.
Repitam isso todos os dias.
Lutem contra Deus, convosco próprios, com as distracções, com pecado e com o Diabo.
Despojem-se de vocês mesmos e dêem o lugar principal a Deus.
Coloquem-se diante d’Ele com verdade. A vossa verdade diante da Verdade que Ele é.
A oração é uma questão de FÉ e de PAIXÃO.

E quando não te apetecer, faz na mesma.
Quando achares que não serve para nada, faz na mesma.
Quando julgares que não precisas, faz na mesma.
Quando não tiveres tempo, faz na mesma.
Quando estiveres distraído, faz na mesma.
Quando sentires o teu corpo todo dorido, faz na mesma.
Quando fizer doer o coração, faz na mesma.
Quando achares que és uma merda e voltas sempre a fazer asneira, faz na mesma e com mais força ainda.
Quando te acabarem as palavras, leituras, pensamento e técnicas, continua a fazer na mesma.
Quando estiveres cansado de lutar, faz na mesma.
Quando te renderes a Deus, continua a fazer na mesma.
Quando mais nada te restar na oração a não ser o silêncio cheio de paz, fica aí.

Saboreia isso. Contempla isso.
Repara como te sentes amado, reconciliado e tudo é dom.
Continua a saborear isso.
É Deus que te encheu o coração da Sua presença.

Quando souberem o que isso é voltamos a falar…

E depois continua a rezar na mesma porque ainda não chegaste ao Céu.

Sentinela, que vês tu?


Como posso ser sentinela (Ez 33, 7-9) se a minha própria alma vagueia pelos montes do egoísmo e pelos vales do pecado?
Creio que era S. Gregório Magno, papa, que sofria também com esta pergunta no seu ministério.
E porque hei-de querer controlar o amor do Deus (Mt 20, 1-16), sendo o último dos trabalhadores e o primeiro dos ímpios?
O medo de voltar a falhar tornou difícil contemplar o amor de Deus por mim, que se manifestou na Cruz de Jesus e que me chama desde a primeira hora a trabalhar pela minha salvação na vinha do Senhor que é a Igreja.
Já quero fazer propósitos e arranjar estratégias para não voltar a falhar.
Calma…
Contempla e saboreia o amor de Deus…

O silêncio hoje foi difícil e houve dispersão. Começou a apertar-me o peito e a querer rebentar.
Saborear o amor de Deus.
Talvez tenha sido isso que tem faltado das outras vezes. Passo por cima disso e avanço logo para os propósitos e objectivos e truques e etc…
Tudo assente nas minhas capacidades e na minha vontade.
Saborear o amor de Deus. Confiar e dar o primeiro lugar a Deus.
Reafirmar a paixão por Ele. Como é que isso se faz?

Shiuuuu…
Não fales. Não penses em nada. Apenas fica diante do Senhor.
Sem porquês, sem razões, sem justificações, sem conversa, sem fazeres rigorosamente nada.
Apenas fica…
Silêncio… Saboreia… Contempla…

Beijar os pés

Quando lemos Lucas 7, 36-50 habitualmente ficamos espantados pelo gesto da mulher pecadora que lava os pés de Jesus com as lágrimas (tenho um texto neste blog sobre isso).
Mas avancemos um pouco mais. Repara como enxuga os pés com os cabelos e os beija.
O gesto de lavar os pés tem fortes ressonâncias na nossa fé e na Escritura. Lembramo-nos logo do gesto de Jesus na Última Ceia como gesto de entrega, serviço e despojamento, antecipando a Sua morte. Sabemos que esse gesto era feito pelos escravos, o que nos impressiona mais porque Jesus, sendo Deus se fez homem, sendo Senhor se fez servo.
Mas repara hoje no gesto de beijar os pés. No tempo de Jesus, beijar os pés ou o joelho era sinal de agradecimento profundo por uma vida salva. E está tudo dito.
Quem não ama não pede perdão nem reconhece o perdão por achar que não precisa dele. Quem não ama fica no julgamento («Se este homem fosse profeta…»).
Ou então fica na inveja de ser mais ou menos amado por Deus em relação a alguém (Mt 20, 1-16: «Estás com ciúmes por eu ser bom?). Quem ama é agradecido, reconhece-se salvo, resgatado, libertado.
Muito devo ao Senhor porque muito o ofendi e me afastei. Muito lhe agradeço porque muito fui perdoado. O Senhor salda a dívida do meu afastamento no madeiro da Cruz. O seu amor feito entrega é o meu resgate. Por isso lhe beijo os pés, reconhecido e agradecido por me ter salvado. Sem vergonha da humilhação do que os outros pensam, mas expressando o meu amor por Ele.
Se o que mais dói é a dor de ser perdoado, então aquilo que me leva a mudar e converter é o reconhecimento do amor de Deus por mim amando-o muito mais.


Oblação de Santo Inácio (EE 98)

Eterno Senhor de todas as coisas, eu faço a minha oblação, com vosso favor e ajuda, diante da vossa infinita bondade, e diante da vossa Mãe gloriosa e todos os santos e santas da corte celestial, que eu quero e desejo e é minha determinação deliberada, contanto que seja vosso maior serviço e louvor, imitar-Vos em passar todas as injúrias e todo o desprezo e toda a pobreza, assim actual como espiritual, se Vossa Santíssima Majestade me quiser escolher e receber em tal (indicar qual) vida e estado.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

A ovelha empoleirada na Cruz


Contemplo a cruz e imagino uma ovelha pendurada à volta da cabeça pendente de Jesus.

A ovelha escuta aquelas palavras sussurradas do Senhor crucificado:
Tenho sede do teu arrependimento e conversão.
Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem que o seu pecado continua a crucificar-me, a exigir a prova máxima do amor.
Meu Deus, porque me abandonaste? Pois fiz tudo para te encontrar e tu continuaste fugido e escondido de mim.
Tudo está consumado porque, finalmente e totalmente, a todos reconciliei com o Pai.
Nas Tuas mãos entrego o meu espírito, para que este amor pregado na cruz os ensine a não voltar a fugir de Ti, ó Pai.

«Vinde, exultemos de alegria no Senhor,
pois Ele é o nosso Deus e nós as ovelhas do seu rebanho.
Se ouvires a voz do Senhor não endureçais os vossos corações» Sl 94 (95)

Não lamento aquilo que perdi. Lamento e choro aquilo que recuso ser...

A dor de ser perdoado

Já deves ter experimentado aquela sensação desconfortável quando fizeste asneira e entras sorrateiro em casa e, ao chegar junto do teu pai (ou mãe) reparas para ele e percebes no seu olhar que ele sabe da asneira que fizeste, mas que nem por isso fica com cara de reprovação.
Imagina o rosto de teu pai com um ligeiro sorriso, daqueles que te irritam porque te sabes nu diante dele. Aquele sorriso e aquele olhar como que a dizer-te sem palavras: Vá, diz lá o que fizeste. Admite o mal que eu e tu sabemos que praticaste.
Pensas para contigo: "O raio do homem conhece-me mesmo bem..."
Sentes a vergonha de ter sido "apanhado" mas, ao mesmo tempo, tens aquele sentimento de "eu tenho um pai que me conhece e me ama".
É este sentimento que tu não queres perder porque sabes que, se esticares a corda, desiludes o teu pai e o levas a pensar: "Não aprendeu a lição. Abusou da minha confiança. Desperdiçou o meu perdão. Traiu o meu amor." É pensar nisto que mais faz doer o coração. É isso que te leva a evitar o mal e o pecado.
É isso que te leva a amar o Pai e a não ter medo dele. Não é o medo do Pai, do seu ralhete, castigo ou puxão de orelhas que me afasta do mal, mas sim o não querer desiludir o Pai por não querer ou saber corresponder com amor ao seu amor.
Ser perdoado dói...
A união de amor com o Pai faz-nos únicos para ele e, por isso, não desiste nem abdica de nós. O pastor procura a única ovelha que se perdeu e a mulher a única moeda que deixou cair (Lc 15, 1-7. 8-10).
A vergonha do pecado e a falta de confiança no perdão de Deus leva, por vezes, a ovelha a esconder-se nas rochas do orgulho quando sente o pastor por perto à sua procura, gritando pelo seu nome.
Apesar de me perder preciso de me deixar encontrar.
E até gritar (ou berrar) para que o pastor saiba onde estou e me encontre mais depressa. Não devo fugir do pastor quando se dá o encontro, mas sim deixar-me agarrar para que Ele me coloque aos seus ombros. E ficar bem junto dele.
É assim o amor exagerado de Deus.
Eu até podia voltar sozinho para o redil já que também cheguei ali meu próprio pé.
Mas o Pastor faz questão de que eu sinta os seus passos, o seu cansaço, o seu esforço por minha causa, o seu respirar aliviado por me encontrar e até alguma palavra de carinho que só se diz baixinho.

domingo, 4 de setembro de 2011

Outono

Deitado no banco do jardim entreabro os olhos.
Vejo o sol penetrar através das folhas das árvores, fazendo um jogo de cores e sombras.
Percebem-se as cores das folhas: vermelhas, verdes, amarelas, castanhas...
É o sol que revela a cor das folhas.
O vento agita as folhas numa dança ritmada.
É o vento que dá movimento.
E só assim, pelo balouçar das folhas e dos ramos, sentimos e ouvimos o vento.
O vento faz cair as folhas mortas numa chuva de cores.
É o vento que nos faz mexer, abanar e nos despe daquilo que está caduco, pôdre e morto.
É o vento que renova.
E umas árvores mexem-se mais que outras.

Miserere

Senhor, que vida miserável tenho vivido.
Quanta divisão interior, quanta dor causada, quanta precipitação, quanto medo da solidão, quantos afectos desordenados, quanta falta de entrega ao Teu serviço, quanta murmuração, quanta inveja, quanta procura de aplausos, quanta falta de vigilância e critério entre trigo e joio, entre santidade (dom de Deus) e perfeição (esforço pessoal), quanta mesquinhez, quanto afastamento e recusa de Ti...
Contemplo o inferno (EE 71) que é a Tua recusa permanente e sinto a dor causada ao Teu coração.
Vou continuar e protelar esta vida ou resolvo-me a mudar de vez?

Nada no mundo me ajuda a permanecer seja no que for. Tudo muda demasiado rápido: os valores, os critérios, as opiniões... Participo no pecado do mundo quando quero acompanhá-lo nessa fugacidade para agradar aos homens em vez de Deus. O meu pecado pessoal aumenta o pecado do mundo quando abandono levianamente a fé e baixo a fasquia da caridade e da verdade para agradar aos homens na procura da sua admiração.

Deixar crescer o trigo e o joio até à colheita (Mt 13, 24-30) para amadurecer a consciência do amor de Deus e do pecado. Então depois, colher ou queimar.
Quanta dor pelo pecado e quanta dor pelo amor traído...

Tudo se "esfuma" nas trevas do pecado e na escuridão da dor.
A única certeza e o único consolo que me resta:
Deus vem em meu auxílio,
O Senhor sustenta a minha vida. Sl 53 (54)

A esperança que me alenta:
"Os justos brilharão como o sol no Reino de meu Pai" (Mt 13, 36-43)

Roído pela dor deito-me no banco do jardim,
O vento agita a árvore que me dá sombra.
Os meus olhos bateram e ficaram nos ramos secos.
Parecem garras afiadas prontas a cortar-me a vida,
São os ramos que recebem menos sol...
Numa árvore grande com as suas folhas vermelhas.

O traje de festa (Mt 22, 11-14)

Escuta (de Deus) - o convite para o banquete
Conversão (a Deus) - vestir o traje de festa
Alegria (em Deus) - de participar no banquete nupcial
Comunhão (com Deus) - o Reino de Deus

Programa de vida no qual é preciso PERMANECER (exige fidelidade, perseverança, vigilância). Para permanecer no banquete é preciso ter o traje de festa: a conversão é permanente.

Cf. Então reflecti para compreender até que fui penetrando no mistério de Deus. Sl 73 (72)

Princípio e Fundamento

«O homem é criado para louvar, prestar reverência es ervir a Deus nosso Senhor e, mediante isto, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da terra são criadas para o homem, para que o ajudem a conseguir o fim para que é criado.» (Exercícios Espírituais 23)

Deus criou-me para sua glória. A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é o próprio Deus, diria Sto. Ireneu. A minha glória é ter Deus comigo e em mim.
Preciso de ter consciência do fim para que fui criado para saber o meu lugar e a minha missão e, desta forma, saber o lugar de cada coisa na minha vida. Tudo o que me ajuda a dar glória a Deus deve ser aceite; tudo o que me impede deste fim deve ser recusado.
Só assim saberei "vender" o que possuo com alegria para possuir o único tesouro que importa: Deus e o seu amor.

Servi o Senhor com alegria porque Ele é bom, fiel e misericordioso. Sl 99 (100)

O amigo "desistente"

O amigo insistente de Lc 11, 5-13 não pede para si e, por isso, pede a qualquer hora e com a esperança de receber.
Mas aqui este amigo "desistente" sente demasiada preocupação em pedir e em dizer aquilo que eu acho que Deus quer ouvir. Assim não peço com a vida nem com a minha verdade pessoal.
A vergonha de pedir, bater e procurar... Sim, porque fazer isso é reconhecer que não temos nem somos capazes de tudo; não nos bastamos a nós próprios. Mas, se não o fizermos, nunca temos, não recebemos nem encontramos.
Pedir o que Deus quer, procurá-lo a Ele e ao seu amor, bater à porta da sua misericórdia. O resto será dado por acréscimo...
Nós, que somos maus, sabemos pedir coisas boas para aqueles de quem gostamos. O Pai, que nos ama, dá-nos o que tem de mais precioso: o seu Filho e o seu amor pelo Espírito Santo.
Isso não será suficiente para nós porque não alargamos o nosso olhar até ao horizonte de Deus e porque as nossas vontades não coincidem. Cada um que pense bem nos pedidos que faz a Deus: saúde, sorte, paz, boas notas, etc... Estas e outras coisas não surgirão como consequência de uma vida em Deus e cheia do Seu amor?
Deus dá-me a Sua presença, que é o Espírito Santo. Isso não me chega?
É pela Palavra de Deus que alargamos o nosso horizonte de vida e aprendemos a conciliar a nossa vontade com a d'Ele. Por isso é "Palavra de salvação". Salava-nos dos horizontes curtos e desejos de pouco ou mesquinhos.
Desejar menos que a santidade é pouco. E o querer pouco de Deus e de mim mesmo é falsa humildade.
Penso em mim, em certas situações da minha vida, e em algumas pessoas que conheço que são infelizes porque não ousam querer mais.
O meu desejo de encontrar Deus é fraco pelo medo de me encontrar com a minha verdade. Ele tem essa mania de nos revelar a nós mesmos... Esse medo é falta de fé e de confiança em Deus e no seu amor que é perdão e misericórdia. Senhor, aumentai a minha fé...

Peço-te, Senhor, o Teu Espírito
para querer o que Tu queres,
para experimentar e ver a Tua presença
que me dá um novo horizonte e novo alcance,
nova força, novo olhar e novo coração.

Cantarei ao Senhor enquanto viver;
louvarei o Senhor enquanto existir.
Bendiz, ó minha alma, o Senhor.
Sl 104 (103)

Isaías 6, 8-13

Preciso de olhos novos, ouvidos novos
(daqueles que vêm e ouvem mesmo...)
e de um coração novo,
purificado pela brasa do amor de Deus
que faz arder tudo o que nos afasta d'Ele.
Preciso de um coração novo,
onde arda esse amor de Deus,
para que a boca anuncie a Aliança
que Deus faz e refaz comigo no coração.
"Aqui estou, envia-me."
E da destruição das cidades,
das árvores cortadas pelo tronco,
brota um rebento...
O Emanuel, Deus em mim.

Conversão

Quero, Senhor, o teu amor;
quero conhecer-te a amar-te para te desejar cada vez mais,
e assim levar os outros, pela minha missão, a conhecer-te e a desejar-te.
Abro o meu coração para te acolher
e retiro tudo o que me afasta de ti:
as tuas caricaturas que eu ou outros inventam,
os meus desejos de coisas fúteis, a glória pessoal,
os aplausos, o egoísmo, a apatia,
o medo de me expôr e de mudar...
Retiro-me de mim mesmo para te dar lugar,
porque só quando tu estiveres plenamente em mim,
eu estarei plenamente em mim próprio,
e serei plenamente conforme a tua vontade.

Quando parar é fazer caminho.

É isso mesmo: quando parar é fazer caminho. É assim que me sinto depois deste ano pastoral dificil e atarefado. E antes que outro ano chegue sem dar conta vamos lá parar para definir caminho.
O trabalho com os jovens, a dificuldade da realidade das vocações, a ausência de uma comunidade concreta, as tarefas tão diferentes que dispersam, os grandes momentos de Igreja como as JMJ, etc., levam-me a precaver nesta nova etapa.
Uma experiência nova: fazer os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.
Uma pedagogia diferente, um grupo de pessoas diversificado (para não ser só com padres!), uma casa diferente. Parar, procurar, escutar, amar... 8 dias em silêncio. Conversão em ordem à comunhão.
Fiquem por aí que eu vou ali parar e já volto...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Pára! Vê! Pensa! Decide!

O Abandono é o fruto delicioso do Amor

Há nesta terra
Uma Árvore maravilhosa
A raíz dela, ó mistério!
Encontra-se nos Céus...

Nunca à sua sombra
Alguma coisa poderá ferir,
sem recear a tempestade
Pode-se aí repousar.

Esta Árvore inefável
Tem por nome o Amor,
E o seu fruto delicioso
Chama-se o Abandono.

Já nesta vida esse fruto
Dá-me a felicidade
A minha alma deleita-se
Com o seu divino aroma.

Quando toco neste fruto
Ele parece-me um tesouro
Ao levá-lo à minha boca
Acho-o ainda mais doce.

Ele dá-me neste mundo
Um oceano de paz
Nesta paz tão tão profunda
Repouso para sempre...

Só o Abandonome entrega
Aos teus braços, ó Jesus!
É ele que me faz viver
Da vida dos Eleitos.

A Ti eu me abandono
Ó meu Divino Esposo!
Nada mais ambiciono
Senão o teu doce olhar.

Quero sempre sorrir-Te
Adormecendo no teu regaço
Quero ainda repetir
Que Te amo, Senhor!

Ó meu doce Sol de vida
Ó meu Amável Rei,
É a tua hóstia Divina
Pequena como eu...

Da sua Celeste chama
O raio luminoso
Faz nascer na minha alma
O perfeito Abandono.

Todas as criaturas
Podem abandonar-me
Saberei sem queixumes
Junto de Ti dispensá-las.

E se Tu me deixares
Meu Divino Tesouro
Privada dos teus mimos
Continuarei a sorrir.

Em paz quero esperar
Doce Jesus, o teu regresso
E sem nunca parar
Os meus cânticos de amor.

Não, nada me inquieta
Nada pode perturbar-me.
Mais alto que a cotovia
A minha alma sabe voar.

Acima das nuvens
O céu é sempre azul,
Atingem-se as praias
Do reino de Deus.

Espero em paz a glória
Da Celeste morada
Pois encontro no Cibório
O doce Fruto do Amor!

S. Teresa do Menino Jesus e da Santa Face

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Uma nova evangelização para a transmissão da fé cristã

O tema da nova evangelização está na ordem do dia do debate teológico e pastoral.
Mais que um simples tema académico ou simples fruto de uns quantos carolas, o magistério da Igreja tem feito seu este debate desde a Evangelii nuntiandi de Paulo VI, continuada com João Paulo II que queria uma evangelização "nova no seu ardor, nos seus métodos e nas suas expressões" (Discurso à CELAM a 09/03/1983) no respeito e fidelidade pela tradição da fé.
Estamos em tempos de tensão, de mudança e, sobretudo, de discernimento. Temos muito a aprender e a rever. E nós, cristãos, ou fazemos parte dessa mudança ou seremos um dia acusados da estagnação do Evangelho e fechamento da Igreja em si mesma.
O Papa Bento XVI, que muito tem falado deste tema, convocou para o próximo ano um Sínodo dos Bispos com este tema: Uma nova evangelização para a transmissão da fé cristã.
Vale a pena ler os Lineamenta mandados às dioceses do mundo inteiro e procurar respostas às questões colocadas. Podemos ler ou copiar o documento em http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20110202_lineamenta-xiii-assembly_po.html

Lembro dois reptos de D. José Policarpo por ocasião do Congresso Internacional para a Nova Evangelização: o sentido da missão dos cristãos e a especificidade da pastoral juvenil.



O testemunho de Maria José Nogueira Pinto

O testemunho de uma católica na política que procurou mostrar a política católica...
Vale a pena ler a sua última crónica no Diário de Notícias (DN online) de 07/07/2011 que podem consultar na íntegra aqui http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1899483&page=-1



«Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.

Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.»

A procura de Deus






A procura de Deus - ou o que se procura na sua ausência? - é um assunto da ordem do dia. Coloco aqui o testemunho deste homem que me impressiona pela sua cultura. Reparem nas citações que faz, de forma aberta, mostrando que não é um assunto resolvido, e com humor, como sempre.
Habituámo-nos, talvez, a vê-lo como mais um brincalhão, mas o seu humanismo desinstala e leva-nos a fazer nossas muitas das questões não resolvidas do nosso coração inquieto e peregrino de sentido e de verdade.

Youcat - A fé explicada e anunciada aos jovens


Esta é uma ferramenta muito importante nos próximos passos da Pastoral Juvenil.
Creio que os jovens precisam dum texto adequado à sua sensibilidade e à sua procura de Deus em Jesus Cristo, seja individualmente ou em grupo, com os conteúdos fiéis da nossa fé católica.
Será também muito importante na formação dos animadores que têm um papel fundamental na evangelização dos jovens.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A lição da Páscoa

Neste Domingo de Páscoa "vemos e acreditamos" que Jesus ressuscitou. Ele tinha de ressuscitar!
Transcrevo um texto do jornal "SOL", do dia 21 de Abril de 2011, da autoria do teólogo João António Pinheiro Teixeira. Agradeço a quem me deu a conhecer este texto para relembrar a lição da Páscoa.
Santa Páscoa para todos.

AMOR, AUTORIDADE E A PERENE LIÇÃO DA PÁSCOA

A Páscoa não é a evocação vaporosa de uma época distante. Ela é a novidade perene oferecida ao homem e inscrita no tempo.
Não é em vão que ela ocorre sempre na Primavera, quando a natureza se solta. E, quase sempre, em Abril, quando, entre nós, a liberdade se celebra.
O Evangelho, até no mais ínfimo pormenor, tem a preocupação de realçar tal novidade.
A referência que nele é feita ao «primeiro dia da semana» (Jo 20,1) surge em nítido contraste  com o dia anterior, o último dia.
No caso do último dia, respira-se morte. Já no alvorecer do primeiro dia, volta a despontar a surpresa da vida.
O sinal da morte está removido. A pedra no sepulcro seria como um ponto final num texto. Afinal, o texto iria continuar.
Sucede que, num primeiro momento, a reacção é de alarme. Não se trataria de uma vitória da vida, mas do furto de um cadáver (cf. Jo 20,2).
São, então, avisados dois dos discípulos de Jesus: Pedro e João, duas personalidades e dois sinais. Pedro representa a autoridade, João simboliza o amor.
Pedro sai com João rumo ao sepulcro. Ou seja, a autoridade não dispensa o amor na procura de Jesus.
Mas, a determinada altura, João antecipa-se. Na verdade, o amor vai sempre à frente e chega sempre primeiro.
Como refere o comentário de Mateos-Barreto, «corre mais depressa o que tem a experiência do amor, o que foi testemunha do fruto da Cruz».
De facto, na hora da morte, so o amor (João) esteve presente. A autoridade (Pedro) ausentara-se, retraída. Só o amor é capaz de vencer o medo.
João chega primeiro ao sepulcro. É pelo amor que se atinge a meta e se chega a Deus.
Só que, como reconhece São Paulo, o amor também sabe ser paciente, também consegue esperar e, aspecto nada negligenciável, nunca é invejoso (cf. 1Cor 13,4).
João vê o sepulcro vazio, mas não entra. Aguarda que Pedro venha. O amor respeita a autoridade. Até porque sabe que, na Igreja, a autoridade está ao serviço do amor.
Não se trata de um mero acto de deferência. É, sobretudo, um gesto de reconciliação.
É que, com as negações de Pedro (cf. Jo 18, 15-17. 25), era a autoridade que vacilara, vacilara no amor. Agora, o amor dá uma nova - e definitiva - oportunidade à autoridade.
O amor é humilde. Sabe que a autoridade tinha negado Jesus, mas, por isso mesmo, deixa-a entrar em primeiro lugar para que, em primeiro lugar também, expresse o seu amor.
O amor é mesmo assim: uma sucessão de começos. A autoridade sente-se reabilitada e segura por correr atrás do amor.
Na Igreja de Jesus, a autoridade só faz sentido em função do amor. A autoridade não vale por si mesma. Ela só tem sentido através do amor, pela mediação do amor.
É o amor que aponta o caminho à autoridade. Sem amor, a autoridade perde o norte, a bússola.
A autoridade é necessária. Mas ela é apenas instrumental. Existe para tornar presente o essencial. E o essencial é o amor.

Na imagem: Pedro e João correm ao sepulcro de Eugène Burnand

Com Maria aos pés da Cruz

Na Sexta-feira Santa lembrei-me da Mãe de Jesus aos pés da Cruz. Foi assim a minha oração: contemplando em Maria a própria Igreja junto à Cruz de Jesus, bebendo daquela água e daquele sangue; Maria, modelo de seguimento e de fidelidade, pois ela não fugiu nem voltou as costas ao sofrimento do Seu Filho; Maria consoladora que acolhe os discípulos de Seu Filho no seu regaço de Mãe.
Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) deu-me uma ajuda que partilho convosco.

Hoje contigo, aos pés da cruz,
Senti, mais profundamente do que jamais sentira
Que aí, e somente aí, te fizeste nossa Mãe.
Também as mães cá de baixo cumprem
Fielmente as últimas vontades dos seus filhos.
Mas tu tornaste-te Serva do Senhor;
A tua vida foi toda dedicada à Vida
E ao ser do Deus feito homem.

Pelo sangue das tuas dores tão amargas,
Tu escondeste os teus filhos no coração,
Adquirindo uma vida nova para cada um deles.
Tu conheces cada um de nós inteiramente
Com os nossos defeitos e as nossas feridas;
Tu conheces igualmente o fulgor
Com que o Amor do teu Filho
Nos cobrirá lá em cima.
Por isso, guia atentamente
Os nossos passos hesitantes;
E, para nos conduzir ao Céu,
Não imponhas um preço elevado demais.

Mas aqueles que escolheste por companheiros,
Para estar contigo ao redor do trono eterno,
Devem aqui em baixo manter-se aos pés da Cruz;
E pelo sangue das suas dores tão amargas
Adquirem a glória celeste para as almas
Que o Filho de Deus lhes confiou.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

De uma homilia de Quinta-feira Santa...

"Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti..."
Vale a pena insistir nisto: A Igreja não tem outro sacrifício para oferecer senão o de Cristo. É dele que a igreja vive; é ele que a Igreja anuncia. E porque a Igreja vive desse sacrifício de amor, ele transforma-se em alimento: "é o meu corpo, é o meu sangue". E porque é alimento, é também esse sacrifício que a Igreja procura imitar: "assim como eu vos fiz, fazei-o vós também". Será isso que nós acreditamos e vivemos?
dizia Simone Weil, uma mística francesa do início do século XX: «Quando leio o Novo Testamento, as místicas, a liturgia, quando vejo celebrar a Missa, sinto como que uma espécie de certeza de que esta é a minha fé, ou mais exactamente, seria a minha fé se não existisse entre ela e eu a distância criada pela minha imperfeição».
Ficou-nos do Evangelho, quer o espanto de Pedro perante um Senhor que se dispunha a lavar-lhe os pés, quer a pergunta de Jesus, feita num plural que certamente nos inclui: "Compreendeis o que vos fiz?" Responderemos logo que sim... Mas talvez levemos uma vida inteira a passar da compreensão à prática, comungando de Jesus a verdade da humildade e do serviço. Assim é Deus que reina servindo... Assim é a Igreja que serve sendo imperfeita.
É devido à consciência dessa imperfeição que é imperativo o caminho da conversão: "nem todos estamos limpos". A realidade do pecado, do afastamento de Deus, fere a santidade da Igreja e desvia-nos do caminho da salvação. A conversão e a santidade da Igreja dependem da minha conversão e da minha luta de todos os dias pela santidade.
A urgência da santidade, de tomarmos o exemplo de Cristo e de por Ele e por Ele guiar as nossas vidas, desafia-nos a tomarmos opções sérias nas quais se jogam o futuro de cada um e o da Igreja.
Abaixo-me para lavar os pés à minha imperfeição e com ela sirvo a Igreja.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Uns minutos na companhia de Jesus Eucaristia

Não é necessário, meu filho, que saibas falar muito e bem para que Eu goste do que me dizes. Fala-Me com simplicidade, com o coração, como falarias com o teu pai, ou com o teu irmão, ou com o mais íntimo dos teus amigos.
Precisas de Me pedir alguma coisa em favor de alguma pessoa? Diz-me de quem se trata e que bens queres para ela. Pede, pede muito, que Eu gosto de corações generosos que, esquecendo-se de si próprios, se comovem com as necessidades alheias.
E para ti, não precisas de nada? Fala-me das tuas fraquezas, pede-Me que te ajude nos esforços que fazes para lutar contra elas. Não te envergonhes: há no céu tantos santos que tiveram os mesmos defeitos que tu... e lutaram... e recomeçaram tantas vezes... e pouco a pouco foram melhorando. Não duvides em pedir qualquer bem, conceder-te-ei o mais conveniente para a tua santificação.
Conta-me os teus planos, o que te preocupa? Em que pensas? O que desejas? O que ocupa hoje particularmente o teu coração? Quais são os teus sonhos e projectos?
Estás triste por algum motivo? Conta-me as tuas tristezas ao pormenor. Aproxima-te do meu coração, tantas vezes ferido pelos homens e encontrarás consolo no teu.
Temes algum mal? Abandona-te nos braços da minha providência. Estou contigo, tens-Me ao teu lado! Conheço tudo e nunca te abandonarei.
E tens alguma alegria que queiras contar-me? Conta-me o que, desde a última vez que estiveste comigo, te deu consolo ou fez sorrir o teu coração. Quem sabe se não tiveste alguma boa notícia ou alguma vitória nas tuas lutas, talvez tenhas vencido dificuldades ou saído de apuros...? Não te esqueças que tudo quanto te acontecer, enquanto estiveres perto de Mim, será para teu bem e motivo de acção de graças.
Concretizámos um propósito? Bem sabes que a nossa intimidade será maior na medida em que te esforçares  por me amar. Este é o momento da sinceridade: tens a resolução firme de evitar o pecado? Voltarás a ser amável com aquela pessoa que te incomoda? Desejas seguir sempre o caminho do amor, mesmo que implique sacrifício? Esforçar-te-ás por trabalhar melhor? Ter-Me-ás presente nas tuas orações? Voltarás sempre para Mim, aconteça o que acontecer?
Continuamos a nossa conversa amanhã? Agora volta às tuas ocupações; mas procura viver em tudo a caridade, ama a minha Mãe, que também é tua e conta contigo.
Volta outra vez amanhã, com coração cheio, mais entregue a Mim. No meu coração alcançarás cada dia mais amor, novos benefícios, consolos...! Aqui te espero!

(inspidado num texto de Sto. Afonso Maria de Ligório)

É tão simples, não é?
E tantas uso de palavras vazias sem encher o silêncio da Sua presença.
Tantas vezes quero coisas grandes quando devia quere-Te a Ti mesmo que és o Altíssimo.
Tantas vezes quero tanta coisa quando só uma é necessária: escolher a melhor parte, escolher-Te a Ti mesmo, ó meu Deus e meu tudo.

Uma viagem aos Estados Unidos

Precisava de mudar de ambiente, precisava de um empurrão, precisava de uma experiência nova, precisava de qualquer coisa cuja falta já se fazia notar.


Vencidas todas as argumentações para não ir e todas as dificuldades de fazer uma viagem enorme a outro continente sozinho, lá embarquei.


A experiência da solidão no meio da multidão ao passar por dois países. Ninguém com quem conversar. A ajuda da música, da leitura, por fim, da oração... no meio de um aeroporto. As horas passam devagar. Depois a correria, novamente a espera pelas horas entre a partida e a chegada.
Chegando ao desconhecido foi constatar a imensidão, a diversidade de um país como os Estados Unidos. O primeiro contacto: o padre Manuel que procurava um outro padre atrapalhado no meio do aeroporto de São Francisco. A primeira conversa, os primeiros olhares sobre a grande cidade de São Francisco.


No dia seguinte, em duas horas de carro, a enorme Califórnia. Muitas perguntas sobre a realidade que se estendia diante dos meus olhos. Tantas ou mais perguntas sobre o estado da nossa pátria. Viriam a ser muitas essas conversas.


Um retiro com casais num local esplêndido dos franciscanos. Cerca de 30 casais, todos eles com idade para serem meus pais. As primeiras palavras, as primeiras orações em conjunto. E foi nascendo a confiança no meio do acolhimento fraterno que todos eles me deram. "Tenho sede: a sede de Deus pelo homem". Sentiam-se com as voltas trocadas: então mas não é o homem que tem sede de Deus? Foram percebendo, com a ajuda da samaritana de Jo 4, como a iniciativa é sempre de Deus que nos procura.


Findo o retiro, algum descanso. Vamos ver o mar, vamos conversar sobre o cá e lá, a realidade de quem saiu da sua terra á procura de vida melhor, o trabalho árduo, a correria da vida, o estilo de vida americano: sem parar...


Os dias que tinha até ao próximo retiro iam dar para conhecer aquela realidade que me fascinava cada vez mais. E como seria a realidade eclesial dos jovens. Veio a resposta. Uma noite de adoração eucarística, uma eucarístia vivida, um encontro com 50 jovens, um testemunho vocacional em inglês macarrónico. Aqui reza-se! Sem preocupações com opiniões de terceiros ou quartos, sem vergonha nos gestos mas com autenticidade e coerência entre o interior e o exterior. A música e os gestos que conhecia do youtube mas agora rezada e cantada por mim... A emoção! Os rostos que se recordam: se eles e elas estivessem aqui comigo a rezar com eles.


Vidas desfeitas, vidas apressadas, vidas reconciliadas no sacramento e na oração onde o tempo parece parar. Estamos aqui para isto. Os abraços depois de recebido o perdão, os braços levantados quando sentimos o peito apertado com a emoção da presença amorosa de Deus, os olhos a tremer diante do Senhor que se faz alimento.


Depois a vida. Quer-se coerente com aquilo que ali se foi fazer. Partilham-se vitórias e derrotas, experiências e lições. Se eles estivessem aqui, volto a pensar.


Se na oração não há juízos que deixam rótulos, também na partilha não existem. Uma linguagem dura, uma exigência séria. Achariam muito moralista, talvez. Mas veriam como estes jovens de cá se esforçam na coerência de vida.


Outro retiro. Mais gente mas menos pessoal. A procissão do Senhor dos Passos: as dores do amor crucificado são como dores de parto que dão lugar a uma vida nova orientada pela fé.


Novamente a grande cidade, outro avião, mais umas horas sozinho no meio da multidão.


Digere-se o que se viu, sentiu e se fez. Lá não dava, penso para comigo. Somos pouco emotivos e muito frios e com rapidez colocamos rótulos. Temos medo de arriscar, de inovar, de partilhar com quem pensa e faz diferente. Perdemos a criatividade. Lá a "moda" é outra. Não sabendo partilhar sentimentos com medo do sentimentalismo querem voltar a esconder-se nos devocionalismos vazios... Se vissem isto...


A chegada. Nada mudou. A correria começa logo. Como foi? Conto várias vezes, mas os sentimentos ficam calados. Chega a Páscoa. Mais do mesmo. Trabalho acrescido com a Igreja a sofrer como mãe que vê o filho a afastar-se. Mas se vai haver Páscoa será dentro do peito, longe das vistas. Haverá Páscoa pelo que vi do outro lado do oceano.


(em cima a igreja de Turlock)